andré barata

“O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”.

Argumentos em tempo de guerra

 

Não haja dúvidas quanto à responsabilização, o crime do WTC não é compaginável com desculpas. Nenhuma palavra pode servir para diluir o horror ou torná-lo de algum modo negociável. A inauguração desta nova modalidade de terrorismo - chamemo-lo terrorismo de massas - é mais grave do que um acto de guerra. Razão tiveram, pois, os japoneses ao recusarem prontamente a comparação com Pearl Harbour.

Portanto, o que se dirá em seguida não é nenhum apelo à inacção, à conivência ou ao que quer que se apregoe por aí. Simplesmente, há que cruzar planos, mesmo que o pensamento fácil do belicismo veja nisso intoleráveis contratempos.

Primeira insensatez: "Acho que já é público, mandei assassinar Bin Laden há quatro anos". Estas palavras ouvimo-las da boca do todo poderoso presidente Clinton. Não são um argumento, trata-se de uma acção, mas que resume uma forma de argumentação musculada. Avaliemo-la. O terrorista sobreviveu, e tal como Saddam Hussein, ficou-lhe a aura de herói anti-americano. Perguntar-se-á: é possível que o presidente dos EUA tenha mandado assassinar alguém? Se o próprio o afirma não fica muito por cobrir. Mas era preciso mudar alguma coisa neste capítulo. É que nenhuma da legitimidade que lhe reconhecemos o autoriza e falhando, já do ponto de vista do cálculo frio dos prejuízos, mais valia nada ter feito.

Segunda insensatez: "Entre os muçulmanos, porém, foi fácil fazê-lo. Porquê? Porque, para a sua religião, morrer ao serviço de Deus é uma dádiva, uma bênção a que só os eleitos têm acesso; daí que o façam tranquilamente, como quem faz justiça e não um crime. Islão significa 'submissão completa à vontade divina'. Por isso, enquanto o Ocidente subordina todos os valores à vida humana, o islamismo considera um valor mais alto em nome do qual é uma felicidade morrer." (editorial do "Expresso") Dificilmente seria possível pronunciar tantos dislates em tão poucas linhas. Argumentos como este apenas servem ao espírito de cruzada, justamente o que menos nos faz falta no presente momento. Quanto às boas virtudes ocidentais, o mais importante é que não se esqueça o seguinte: foi o melhor da cultura ocidental que produziu Auschwitz. Quem não esquecer isto, seguramente não cometerá a insensatez de contrapor os valores ocidentais aos valores islâmicos, sejam estes e aqueles lá o que forem. Ou ainda a de trocar os efeitos pelas causas supondo que o actual choque de civilizações e culturas é causa do conflito e não apenas a sua forma.

Terceira insensatez: "Começar por tentar compreender o terrorismo e as suas causas é desde logo uma legitimação desses actos. O terrorismo não tem nem pode ter explicação." (Henrique Monteiro, "Expresso"). Fazer da legitimação do terrorismo a contrapartida da sua compreensão racional, é o mesmo que professar a ideia de que acontecimentos tão graves como os do 11 de Setembro não são pensáveis. Insensatez perigosa. Sem querermos ser insistentes, diríamos mais àqueles que insistem em tão peregrina ideia — se por esse meio procuram ilegitimar os esforços de compreensão de quem se dá ao trabalho ou à inquietação, então não só escolhem o irracionalismo para si mesmos como no-lo exigem como conduta. E exigências dessas deram sempre maus resultados, pratiquem-se lá em que civilização se praticarem. Talvez isto sirva de resposta às perguntas de José Manuel Fernandes: "Vai por aí um curioso coro contra uns putativos censores que procurariam impedir a livre expressão do pensamento. (...) Por isso apetece perguntar: já pensaram tudo? já estão disponíveis para falar do que há a fazer?"

1. A história do fundamentalismo islâmico não começou com o WTC e as suas razões, por mais diabólicas que nos pareçam, não deixam de fazer o sentido que fazem, apesar do horror. Não querer ver as razões é atitude que só aproveita ao próprio fundamentalismo. Manuel Castells num soberbo ensaio ("The Power of Identity") descreve o essencial. Passamos a citar: "A explosão dos movimentos islâmicos parece estar relacionada quer com a dissolução das sociedades tradicionais (...) quer com o fracasso do estado-nação, criado pelos movimentos nacionalistas para levar a cabo a modernização, desenvolver a economia, e/ou distribuir os benefícios do crescimento económico pela população em geral. Assim, a identidade islâmica é (re)construída pelos fundamentalistas em oposição ao capitalismo, ao socialismo e ao nacionalismo".

2. É absurdo não reconhecer alguma relação entre estes factos e os atentados a que assistimos, um certo contexto que, apesar de muitas diferenças e ódios internos, enquadra os estados do Médio Oriente. Parte do Médio Oriente converteu-se há muito ao anti-americanismo: primeiro a revolução iraniana em 79, depois a guerra do Golfo, agora o horror do 11 de Setembro. As crises repetem-se década em década, criam os seus heróis, à nossa luz monstros sanguinários. Porquê os americanos? A palavra forte é humilhação. Humilhação pelo fracasso do modelo ocidental de civilização que a América simboliza, humilhação pela ocupação israelita dos territórios palestinianos e pelas ingerências norte-americanas nesse capítulo, além de uma permanente parcialidade que lhe veio do tempo da Guerra Fria, já para não entrar na questão dos seus interesses económicos no Médio Oriente. E aos humilhados resta uma arma reaccionaríssima: a identidade. Mas, note-se, foi também assim que se fez boa parte da história do séc. XX ocidental.

3. A identidade comunitária tem sido a força por excelência dos movimentos reaccionários, a utopia tem sido a força dos movimentos revolucionários. Uns e outros tendem a contradizer-se, mas em certas circunstâncias têm sabido conjugar-se de forma violenta. Um exemplo histórico ainda recente: o totalitarismo nazi como a sua reconstrução ideológica de certos elementos da tradição alemã associada ao projecto de um Reich milenar, num contexto da humilhação e de crise económica. O retrato actual do fundamentalismo islâmico: a reconstrução de certos elementos da tradição islâmica associada a uma utopia religioso-comunitária, num contexto de humilhação e de miséria crónica. Nisto, a componente religiosa não é essencial; antes é o recurso possível para construir uma identidade e justificar a violência. Tal como no nazismo o culto da raça ariana não era mais que um recurso identitário e um pretexto para a violência. São estas as semelhanças que a má memória de Huntington esquece, são estas as causas que o espírito democrático liberal de Fukuyama desconhece.

4. Os afegãos há muito que não têm nada a perder. Basta olhar para as imagens da cidade que tem sido a capital do Afeganistão para ver que não resta nada a uma população que se confunde com o pó da terra. Mais valia chamar-lhes, a esses despojos humanos da guerra e da miséria material, uma ruína de gente que ainda jovem morre velha, provavelmente sem uma mão ou uma perna ou um olho, sem um filho, um pai, ou um marido. Uma ruína de gente que vive entre ruínas. Meia Cabul não é nada, é apenas um estranho conceito de ruína e de ruínas com vida, em que o primeiro desfalecimento em virtude das bombas longe de representar uma morte traduz uma condição de vida revoltante.

A grande questão é sempre a mesma: que pensamos fazer quanto à miséria e ao desespero dos povos? Enquanto não dermos resposta a esta questão, não nos podemos dizer surpreendidos nem com o fundamentalismo nem com as suas atrocidades. É por isso que esta guerra não devia acrescentar à tragédia de 11 de Setembro mais uma tragédia: a humanitária. Seria deixar a grande questão do nosso tempo sem resposta, seria torná-la ainda mais perigosa. Oxalá não estejamos, dentro de meses, a comentar um número tenebroso de vítimas. Oxalá não tenhamos de admitir, uma vez mais, que era tudo demasiado previsível.

(Em co-autoria com João Paisana, publicado no Público, 15/10/2001, https://www.publico.pt/destaque/jornal/argumentos-em-tempo-de-guerra-163021)

Escrito por André Barata na Segunda Outubro 15, 2001
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