andré barata

“O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”.

Direitos de Bartleby

 

Hoje em dia, não estar numa rede social é cada vez mais um privilégio de quem se pode dar a esse luxo, ou um ato de resistência, ou os dois em simultâneo.

Há uns anos, a crescente videovigilância nos espaços públicos era tema sério de debate. Hoje, está ultrapassado. Já damos por adquiridas as câmaras: à entradas de instituições públicas ou de edifícios mais bem apessoados, em centros comerciais ou em sedes de empresas, e, claro, as microcâmaras nas caixas de multibanco: todas, em uníssono, a vigiar em nome da segurança. Isto tornou­‑se tão normal nas grandes cidades como vermos, sem abalos de maior, a engenhosa Cipher do último Velocidade Furiosa perseguir Dominic “Dom” Toretto pelas ruas de Nova Iorque, de câmara em câmara, “hackeadas” remotamente.

O que não tem remédio remediado está e, no entanto, o problema actual é outro bem mais profundo. Smartphones com câmaras incorporadas chegam hoje onde quer que haja pessoas e, com eles, a possibilidade de gravação imediata, à mão, omnipresente. Já não é das autoridades nem das empresas de segurança privadas que devemos temer a videovigilância, mas —  muito mais extensa e intensamente — de nós mesmos. Extensamente, porque deixou de haver lugares onde alguém possa chegar a que não chegue também uma câmara. Intensamente, porque esta auto-vigilância video não se resume a monitorizar circuitos de segurança como outrora: assume-se como vigilância de tudo o que seja passível de interesse, qualquer que seja o ponto de vista, assim dada por plenamente justificada a gravação e a subsequente partilha, tão mais bem justificada quanto mais ampla for. Isto é o mais próximo que podemos estar de uma vigilância em estado puro.

 

Por que damos para este peditório — uns mais outros menos — a isso conduzidos como por sistema?  As formas de opressão mais bem sucedidas são as que entregam aos oprimidos o trabalho da sua opressão, internalizando-a. E o que há realmente de opressor nisto é que a visibilidade deixou de ser uma escolha, um suplemento que se pagava, no passado, com paparazzis de teleobjectiva em riste, para passar a ser condição necessária do modo mediano de vida. Assim, não estar numa rede social é cada vez mais um privilégio de quem se pode dar a esse luxo, ou um acto de resistência, ou os dois em simultâneo. Não é diferente de outros privilégios e de outras resistências, como o direito à invisibilidade, o direito a ver o rasto na net apagado, o direito ao esquecimento (reconhecido pelo Tribunal de Justiça da União Europeia em 2014).

Tudo direitos que parecem reivindicar demasiado pouco, quase que reivindicam não reivindicar. Se calhar é destes direitos que se dizem pelo inverso de outros mais habitualmente reivindicados que, doravante, mais precisaremos. O direito ao esquecimento, à invisibilidade, à opacidade não se opõem às suas contrapartes — como os direitos a ser lembrado, a ser visto e reconhecido e a ser tratado com transparência. Mas que estes últimos não se absolutizem e não se convertam em obrigações é cada vez mais um direito central decisivo do nosso tempo. Como, por exemplo, abrirem-se fronteiras e ainda assim continuarmos a poder ficar. Em suma, o que Melville antecipou de forma extraordinária com Bartleby e a sua célebre regra de (in)acção “I would prefer not to”. Tanto mais quanto os sistemas mediático e económico não deixam de conservar invisibilidades e opacidades que recusam às pessoas.

Estas transformações são indissociáveis da transição da era dos mass media para a dos social media. A existência social das pessoas tomadas individualmente está, em grande medida, transformada numa existência mediática totalizadora, cada pessoa cada vez mais apenas meio de comunicação e não um fim, cada uma cada vez mais desprovida de direito de reserva, cada vez mais imersa numa obsessiva transparência que se deseja para os meios, mas que, levada às pessoas, não deixa espaço à confiança com a sua inerente opacidade, necessária até mesmo na democracia representativa.

Se antes se exigia e bem mais acesso à actualidade para as pessoas, constituindo um quarto poder, genuíno contra-poder face ao autoritarismo, entretanto foram as redes sociais que, hegemonizando-se, impuseram às pessoas uma exigência de actualidade, com milhares de milhões de utentes a reportarem actualidades entre si, milhares de milhões de micro-agências noticiosas, todas a fazerem-no de maneira idêntica, repetitiva, irrelevante, mas com o mesmo teor de necessidade com que se alimentam ou respiram. Esta lógica de mediatização massifica-nos socialmente numa totalidade de que dificilmente escapamos.

Milhares de milhões de pessoas alimentam com a sua vigilância redes sociais que, por sua vez, alimentam esta massa extraordinária de vigilantes, que vista em perspectiva parece tão desprovida de autonomia como a formiga no seu formigueiro da vigilância. A existência mediática é uma existência totalizadora, que “desliga” a individualidade de cada um quando o “liga” ao  smartphone, à sua câmara, ao wifi e a uma rede social. Em 2007, metade da população mundial dispunha de telemóvel; em 2015, já havia mais telemóveis do que pessoas. Segundo relatório recente da Cisco System (“Visual Networking Index”), até 2021 mais de três quartos do tráfego de dados móveis será de vídeo.

Visibilidade, vigilância e transparência tornaram-se omnipresentes, obsessivamente, até no discurso público pouco inocente da ética. Pois, na realidade, é o direito de cada um a garantir-se que se vê posto em causa com novas formas de violência. Uma frase fora de contexto é uma frase fora do discurso dito ou do texto escrito, mas um vídeo de smartphone descontextualizado é um vídeo fora da própria vida vivida. A violência da descontextualização aumenta tanto quanto aumenta a exposição e a imersão na totalização. E, contudo, é a partir do seu mundo relacional, das suas percepções, bem ou mal formadas, se não deformadas, que cada pessoa projecta actualidade para as outras, arrancando-lhes pedaços às suas vidas.

Aliás, a consciência desta condição apenas interpretativa do acesso à realidade por parte de cada um, em vez de conter presunções, pelo contrário liberta-as de qualquer obrigação de confrontação, sobretudo com a verdade. Daí segue-se a interpretação livre, imediata, massiva, global, de tudo, tudo interpretável sem outro constrangimento que não o da adesão. O exemplo ainda há dias da fotografia da família Trump ao lado do Papa Francisco, instantaneamente seguida por uma explosão de reacções, retoques de Photoshop, trocadilhos imagéticos é só o exemplo de um quotidiano mediático total que se generaliza à escala global e que tem numa interpretabilidade cada vez mais entregue a si própria o motor.

Esta nova realidade humana de imersão numa totalidade mediática, que parece muito relacional e convivencial, não é nenhuma das duas. Sendo, pelo contrário, uma absorção das relações e dos convívios humanos, tem de ser obstada por uma agenda de direitos bartlebianos — a poder ser esquecido, a não ser sempre visível, a não ser absolutamente transparente. Porque, doravante, será nesses direitos que se jogará a liberdade de cada um, mesmo se liberdade de ser uma pedra na engrenagem.

 

(Artigo publicado no Jornal Económico, 1/06/2017, http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/direitos-de-bartleby-166040)

Escrito por André Barata na Sábado Junho 3, 2017
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