andré barata

“O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”.

O trumpismo

 

O sistema adapta-se, porque o regresso ao protecionismo e à política de fronteiras começa a servir melhor os interesses do capital do que a globalização neoliberal.

 

A ascensão de Donald Trump significa uma rejeição da globalização, mas uma rejeição de origem capitalista que visa a opção ideológica estruturante da globalização: o neoliberalismo. O que tem, pois, de ser compreendido, sobretudo por aqueles que se achavam na vanguarda da crítica de esquerda à globalização neoliberal, é que o capitalismo, para sobreviver, inflectiu e elegeu como adversário nada mais, nada menos do que o neoliberalismo e tudo o que ele produz em termos de instituições e valores políticos.

Trump, de certa maneira, anuncia o fim do ciclo iniciado por Reagan e Thatcher há cerca de 35 anos. Mas este fechar de porta ao neoliberalismo é só o sistema a adaptar-se. Porque o regresso ao proteccionismo e à política de fronteiras começa a servir melhor os interesses do capital do que a globalização neoliberal. Mais precisamente, começa a servir melhor os interesses daquele capital que está no Velho Mundo ocidental, de que os Estados Unidos fazem parte. Por isso, a eleição de Trump não é muito diferente do que está a suceder na Europa: o capitalismo económico, mas também um dispositivo de poder estão a reagir. E na sua reacção, se nada os detiver, serão levados de arrasto os direitos das minorias, dos migrantes, dos refugiados, em troca ou de uma promessa de conservação de emprego, ou de estado social, para os que são “genuinamente” de onde estão: brancos de classe média baixa, sobretudo.

 

Por que razão tantos eleitores brancos, sobretudo com algum aperto económico, estão dispostos a fazer compromissos com a xenofobia e o racismo a ponto de elegerem alguém que no seu discurso inaugural de campanha chamou violadores aos imigrantes mexicanos? O boçal só tem sucesso se diz o que já era pensado mas inconfessavelmente. E de que inconfessável se trata? Por exemplo isto: se o ‘trade-off’ para empregos mais certos é a expulsão de hispânicos, então seja. O que não difere muito do inconfessável que se articulou com o Brexit: se o ‘trade-off’ para um serviço nacional de saúde e um estado social para nascidos no RU é a expulsão de imigrantes e refugiados, então seja.

A dissolução das normas mais básicas da convivialidade por um narcisismo boçal e de intimidação, parece ter saltado, num ápice, do anonimato das caixas de comentários de redes sociais e meios de comunicação online para o mainstream do mainstream, que é a eleição do homem mais poderoso do velho mundo. A propaganda “Alt-Right” foi tendo papel activo neste corromper dos limites a que estávamos habituados, com a sua apologia da retórica e da manipulação, com o seu niilismo fanfarrão que mata o facto e qualquer noção de credibilidade para dar lugar ao ‘meme’ produzido para obter um efeito emocional. Esta crise de credibilidade informativa é hoje um fenómeno generalizado e quase definidor da forma como se comunica nas redes sociais. Sem esta transição de uma era de ‘mass media’ para uma era de ‘social media’, onde a democracia degenera em oclocracia, Trump dificilmente teria tido sucesso.

Como se combate o trumpismo? Não se pode subestimar a boçalidade de Donald Trump se queremos combatê-lo. Esta boçalidade não é algo que o desqualifica politicamente, ou aos seus eleitores, como uma falta de maneiras, ou de cultura. Não: a cada frase boçal pronunciada sem prejuízo de si próprio, Trump reforça a sua posição inabalável, incorpora poder carismático que lhe garantirá capacidade de autoritarismo, e também garantirá ao seu eleitorado que seja ele a suportar o odioso da sua política. A boçalidade, tornada uma banalidade pelos “Alt-Right”, é um método eficaz para libertar o sistema político e económico das cadeias que lhe prendem movimentos, cadeias como direitos sociais, pluralismo, política de redistribuição, politicamente correcto, minorias, relativismo.

Mas também não se pode subestimar a necessidade de uma crítica mais séria ao sistema, que de facto implique algum tipo de ruptura com a ordem socioeconómica de imparável crescimento da desigualdade e da exclusão, e de imparável extorsão dos recursos naturais. Só se pode pensar em derrotar o trumpismo atacando o elitismo hipócrita com a mesma força com que este elitismo denuncia aquela boçalidade. Um e outro são os dois lados da mesma moeda, e ambos devem ser rejeitados. Este elitismo, comprazido na crença da sua neutralidade correcta, é o mesmo que, subscrevendo causas emancipatórias, cede à tentação de também fazer delas alibi para uma conservação do sistema e para uma conservação da sua posição no sistema.

E nem Clinton, nem a UE deste lado do Atlântico, se desenredaram deste jogo entre compromisso e hipocrisia. Mas também não é verdade que o eleitorado não soubesse o que estava em jogo. O voto em Trump foi um voto pela capacidade para fazer a “mudança necessária” (83%) que Clinton não faria. Mas o eleitorado que não votou Trump sabe bem o que quer dizer essa mudança. Todos os segmentos raciais com menos rendimentos votaram mais Clinton, com excepção dos brancos. Mais de 80% do eleitorado negro votou Clinton. 94% das mulheres negras votaram Clinton, um número tão esmagador que dificilmente o podemos dissociar da consciência de uma ameaça que a “Alt-Right” incendiará nas redes sociais, garantindo que, no fim, o sistema capitalista e o privilégio branco se conservem.

 

(Publicado no Jornal Económico, 17/11/2016, http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/o-trumpismo-90392)

Escrito por André Barata na Segunda Março 20, 2017
Link permanente -

« Cuba futuro - As três antinomias da democracia »