andré barata

“O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”.

Para uma crítica das redes sociais

 

Quanto mais imersos num tempo de consumo em aceleração menos o dominamos e mais por ele somos dominados.

 

Uma pergunta genuína: por que tratamos as redes sociais como se fossem espaço público se, na realidade, são serviços privados como um desenho que, em última instância, é decidido pelo mercado e suas tendências?

Haverá razões, umas melhores outras piores. Primeiro, porque as redes sociais, apesar de privadas, permitiram, enquanto fenómeno de massas, romper a compressão do espaço público, que o  tornava na prática inacessível a não ser a uma elite que nem sempre coincide com o mérito ou com a maior relevância da opinião. Mais ainda, permitiram constituir, mesmo se apenas como simulacro, uma prática de espaço público onde este não existia. Segundo, embora não o sendo genuinamente, as redes sociais têm a aparência de espaço público. Para esse aspecto contribui muito o seu acesso gratuito. O acesso livre que caracteriza o espaço público, desde logo a rua e a praça pública, confunde-se com a gratuitidade do acesso às redes sociais.  Não é contudo verdade que este acesso não se faça pagar.

 

Uma boa analogia a fazer é com os shoppings. Por regra, estes não cobram a entrada, mas nem por isso se dispensam o direito de condicionar a entrada. Mas aqui o preço a pagar pode ser mais perturbador. Não é tanto a publicidade e o condicionamento de que vamos, enquanto clientes, sendo alvos, é o preço mais elevado de um consentimento, quase sempre pouco explícito, em relação ao uso exaustivo dos nossos dados pessoais e comportamentais, registados em cada uma das nossas interacções públicas. Se já sabíamos que o rasto que deixamos nas redes sociais (e na net em geral) é praticamente inapagável, hoje sabemos que esse rasto é mapeado e sujeito a algoritmos que conseguem, com extraordinário sucesso, distinguir e identificar perfis de consumidor, e mesmo de eleitor. Foi assim com as campanhas do referendo do Brexit e da eleição de Trump.

Mais do que o estéril exercício de ver se prevalecem as boas ou as más razões, interessa perceber a transformação no espaço público que acompanha o domínio crescente das redes sociais. A analogia com os shoppings pode ser levada um pouco mais longe. Como estes, as redes sociais são espaços transitáveis de consumo. Nelas consomem-se imagens, pensamentos, opiniões, impressões, sensações, emoções que nos vão sendo apresentadas como os produtos em montra nas lojas. As redes sociais equivalem, na verdade, a shoppings personalizados com montras de interacções sociais. A personalização é um dado importante. Implica uma construção demorada de uma lista de amigos, o que justifica uma analogia também com os jogos sociais online, onde o valor da conta do jogador está muito dependente do tempo dedicado ao jogo. Este aspecto, bem como o de uma relação duradoura e viciante, também está presente nas redes sociais.

O facto de as redes sociais poderem cumprir funções de espaço público não significa que não sejam ao mesmo tempo este tipo de lugar de consumo, que vai sendo afeiçoado pelos seus clientes como num jogo social online duradouro, a partir de personagens politicamente activas formadas e alimentadas dentro das possibilidades de interacção permitidas. A própria discussão política sobre os malefícios do consumo, que não deve deixar de ser feita, se converte facilmente num objecto de consumo. O “gosto” assemelha-se, no essencial, à intencionalidade do comprar. E só muito inadequadamente esta relação de consumo quase comercial consegue proporcionar um debate público assente, como se esperaria da esfera pública, em razões.

Se compararmos com os blogues, hoje obsoletos, estes são lugares onde se entra, e é com o estatuto de visitante que se lê e comenta. Ou comenta-se em blogue próprio, com a respectiva ligação ao post comentado. Assim, os blogues compuseram, a dado momento, uma rede num sentido muito mais estratégico do que as redes sociais.  O gosto da blogosfera exprimia uma solidariedade com base no reconhecimento argumentativo. Mas este gosto pelo argumento na blogosfera certamente não fazia do “gosto” um argumento. Contudo, os blogues nunca conseguiram ser o fenómeno de massas que as redes sociais são.

Acresce a isto que as redes sociais, o Facebook em particular, hibridam características do espaço privado no espaço público. Conforma-se o espaço público a uma rede que é, primordialmente, de amigos e que fará prevalecer uma lógica de amizade como estruturadora do espaço público. Uma rede de amizades em contraste com um exterior, cada vez mais recortado por actos de expulsão, que se configura assim com um exterior de inimizade e indiferença, mas que, verdadeiramente, seguindo a mesma lógica, se organiza também ele numa rede de amizades. A dissensão não é admitida em comum, falhando o objectivo central da comunicação que seria, com sucesso, conseguir pôr sobre a mesma mesa dissensões. Neste sentido, as redes sociais cumprem muito melhor o papel de organizadores e mobilizadores políticos de facções do que criadores da esfera pública habermasiana, assente no debate público argumentado.

Por fim, mas mais importante, não é indiferente à prevalência das redes sociais uma modificação da nossa relação com o tempo. Há uma aceleração da relação social com o tempo que se verifica de duas maneiras — por um lado, as durações encurtam, desde logo com bens e artefactos consumíveis submetidos à obsolescência programada; por outro, as mudanças multiplicam-se, desde logo com uma intensificação de estímulos que, no limite, procura preencher todos os momentos da existência, dando uma nova actualidade à velha ideia aristotélica de que a natureza tem horror ao vazio. Só não será tanto a natureza, mas uma natureza humana fabricada, de pessoas condicionadas a abominar o vazio quando a todo o instante têm de dar notícia de si numa rede social.

Quanto mais imersos num tempo de consumo em aceleração menos o dominamos e mais por ele somos dominados. Este facto é anterior a qualquer consideração sobre redes sociais. Contudo, a conformação maciça às redes sociais deve ser entendida como uma resposta desenhada dentro deste quadro, que mesmo não sendo criado pela tecnologia, é por ela exponenciado. Há também uma obsolescência programada no Facebook, que é a da própria actualidade logo empurrada para o fundo do mural, o momento presente tão acentuadamente acessível como inacessível a discussão ainda agora passada.

Esta inexorável lei da desactualização compele à repetição, de novo à mobilização, secundarizando o valor do argumento e do contra-argumento a ponto de se desistir da discussão dada a sua ineficácia. Ter razão tornou-se muito menos persuasivo do que reiterar a posição. Estas são as condições propícias à arbitrariedade e à irrelevância da diferença entre o verdadeiro e o falso.

E tal como não se confia ao argumento ser a base da adesão, também não se confia às pessoas os seus silêncios e distanciamentos. A tolerância à espera, a capacidade de diferir a gratificação, aquilo a que Freud chamava a aprendizagem do princípio da realidade tornou-se precisamente o que a realidade mediada pelas redes sociais não tolera. A realidade sem compasso de espera impõe uma infantilização, que não é, contudo, da ordem do prazer, mas do opressivo. Esta ansiedade da produção de um rasto de si mesmo através da comparência permanente nas redes sociais é, na verdade, uma necessidade social construída inteiramente consentânea com o produtivismo. Nada melhor para nos conformarmos socialmente a uma existência regulada pelo produtivismo do que interiorizarmos uma concepção produtivista do nosso próprio existir.

Neste quadro, que fazer pelo espaço público? A resposta não deve ser uma defesa nostálgica de um espaço público do passado contra as redes sociais do presente, mas restaurar nestas a centralidade da argumentação, reivindicando-a para as redes sociais existentes, mas sobretudo inventando outras redes sociais, com configurações mais consentâneas com a ideia de espaço público. E se a resposta não deve ser conservadora, deve contudo não perder de vista que o problema não está nas redes sociais, e sim num tipo de relação social que nos transforma em produção que a sua configuração actual exponencia. Mas é justamente para a crítica, necessariamente argumentada, contra este tipo de relação social, que importa resgatar as redes sociais.

 

(Publicado no Jornal Económico, 26/01/2017, http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/critica-das-redes-sociais-115244)

Escrito por André Barata na Segunda Março 20, 2017
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