andré barata

“O jogo da filosofia é sempre um jogo insensato. Supor, porém, que não fosse absolutamente sério seria um ultraje. Se não fosse subversivo, irritante e insuportável, Sócrates teria sido simplesmente ridículo”.

Que cosmopolitismo? Que europeísmo?

 

A maior fraqueza da política europeia está em ter deixado de ser há muito, quanto aos fins que persegue, verdadeiramente oposta aos nacionalismos.

 

Tem-se dito que o cosmopolitismo é a resposta certa ao crescimento dos nacionalismos, das políticas de fronteiras, da xenofobia e da discriminação de minorias étnicas e religiosas. Mas que cosmopolitismo? Um cosmopolitismo que atravessa cidades e capitais, praticado num quotidiano de aeroportos e passaporte na mão? Ou antes um cosmopolitismo dentro das nossas cidades, praticado no quotidiano das nossas ruas, com os nossos vizinhos, sejam eles imigrantes, refugiados, ou da minoria que forem. A experiência do cosmopolitismo tem de ser esta, a experiência do próximo distante, e não a do distante próximo.

Também há quem pense que o patriotismo é incompatível com o cosmopolitismo e que este último está de alguma forma comprometido com o capitalismo desregulado. E até devemos reconhecer que é assim para um cosmopolitismo que viaja pelo mundo globalizado e que, tal como o neoliberalismo na vida económica, uniformiza um estilo global de existência civil, que sobrevoa povos, e respectivas legitimações democráticas, como se fosse uma espécie de povo da aldeia global, cioso da sua identidade e do seu interesse, consciente do seu poder de influência. Este cosmopolitismo tem de problemático não conhecer fronteiras sim, mas mais como o capital não conhece fronteiras do que como um sentido genuíno de inclusão.

 

Mas não é menos verdade que o patriotismo, para ser decente, tem de animar-se dessa mesma vontade genuinamente cosmopolita de inclusão. Kwame Anthony Appiah chamou a isto “patriotismo cosmopolita”. Podemos amar o nosso país por muitos motivos que não são políticos, mas a amá-lo por um motivo político, esse tem de ser o de uma escolha não nacionalista da inclusão e da convivência das diferenças.

É por isso que num tempo em que explodem ruidosamente os nacionalismos, e irredutíveis monoculturalismos prontos para o conflito, as segregações e as discriminações, as fronteiras fechadas, importa tanto que em Portugal, onde pusemos a austeridade na gaveta, saibamos escolher ser um país do cosmopolitismo da proximidade.  E escolher esse cosmopolitismo digno de sentimentos políticos de patriotismo, sem nacionalismo, passa por escolher uma Lei da Nacionalidade em que os direitos fundados no nascimento e nos laços da vida e do trabalho não sejam humilhados diante de direitos de sangue e de herança que fazem da nacionalidade mais uma exclusividade.

Ao mesmo tempo, não deixa de ser urgente pensar um cosmopolitismo do mundo inteiro. Mas mesmo essa é a urgência de pensar uma comunidade global a partir do signo da proximidade feita de interdependências cada vez mais críticas. Seja pelo esgotamento de recursos naturais não renováveis, seja por ameaças globais cada vez mais concretas, é a sobrevivência da espécie humana, para não falar das outras, que exige um sentido de comunidade global. Ulrich Beck chamou-lhe “cosmopolitismo da realidade”, para sublinhar assim que é a própria realidade, mais do que ideais filosófico-morais, que nos impõe, como condição de sobrevivência, a necessidade de praticar o cosmopolitismo.

A urgência de um cosmopolitismo da proximidade é também a urgência de afastar um falso cosmopolitismo das distâncias. Porque este está reservado apenas a alguns — aliás, a sua generalização global seria incompatível com a sustentabilidade do mundo. E sobretudo porque os nossos cidadãos globais, na verdade, pensam e agem como membros de uma tribo, assim notava certeiramente Ross Douthat, colunista no NYT, num artigo intitulado “The Myth of Cosmopolitanism”, escrito no rescaldo do Brexit. Cioso dos seus hábitos e privilégios, este é um cosmopolitismo diletante que facilmente assimila os aspectos mais convidativos de outras culturas, mas que tende a ser intolerante em relação ao que o possa ameaçar. Só que cosmopolitismo a sério não pode ser apenas uma fonte de experiências, por enriquecedoras que sejam, que visitamos lá longe, tem de ser uma realidade social que nos dispomos a viver de forma partilhada com outros.

Então, o ultra-chauvinismo obsceno a que assistimos hoje por parte da administração norte-americana, que a tantos nos choca e assusta, exige uma resposta eficaz da União Europeia. Acontece, contudo, que com o acentuar da crise europeia (de que a austeridade é apenas um momento), o debate sobre a Europa se tem cada vez mais polarizado em duas respostas, ambas desastrosas. De um lado, o crescente nacionalismo que só conhece a linguagem das exclusões duras, como a xenofobia ou o racismo; do outro, uma política europeia que, desculpando-se com os egoísmos nacionais, se admite praticar, com todo o cinismo institucional, sob o verniz da civilidade e das boas maneiras, exclusões tão pouco suaves que podem bem ser comparáveis, no que respeita aos refugiados, com a agenda repulsiva de Trump.

Emma Bonino, antiga comissária europeia, denunciou-o, há dias, em entrevista ao “La Stampa”: a UE paga à Líbia para fazer as vezes do muro que impede migrantes e refugiados de entrarem no espaço europeu e já fez o mesmo com a Turquia. Isto só confirma que a maior fraqueza da política europeia está em ter deixado de ser há muito, quanto aos fins que persegue, verdadeiramente oposta aos nacionalismos. Uma traição aos seus princípios que, estando a ganhar contornos vergonhosos, tem, apesar de tudo, vergonha de si mesma. A política europeia, que não por acaso fala tanto com a mesma linguagem do cosmopolitismo da distância, precisa de reencontrar a sua justificação na capacidade da proximidade sem a qual nenhum programa de inclusão social passará de uma falsidade. Se perguntamos “que cosmopolitismo?”, temos de perguntar também “que europeísmo?” na urgência de os resgatarmos e de resistirmos à indignidade.

 

(Publicado no Jornal Económico, 9/02/2017, http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/que-cosmopolitismo-que-europeismo-120664)

Escrito por André Barata na Segunda Março 20, 2017
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